Síndrome do Pôr do Sol: Por Que o Idoso com Demência Fica Agitado no Fim da Tarde e O Que Fazer

Por Laura ImoveisPublicado em Atualizado em 7 min de leitura
Síndrome do Pôr do Sol: Por Que o Idoso com Demência Fica Agitado no Fim da Tarde e O Que Fazer

A síndrome do pôr do sol — também chamada de sundowning — é um fenômeno bastante comum em pessoas com Alzheimer e outras demências. Ela se manifesta como uma piora significativa dos sintomas comportamentais no fim da tarde e durante a noite, causando angústia tanto para o idoso quanto para quem cuida dele.

Se você já percebeu que seu familiar fica mais agitado, confuso ou irritado quando o dia começa a escurecer, saiba que isso não é coincidência — e muito menos "frescura". Existe uma explicação neurológica por trás desse padrão, e, mais importante, existem estratégias que podem ajudar.

O que é a síndrome do pôr do sol no Alzheimer?

A síndrome do pôr do sol é um conjunto de alterações comportamentais que aparecem ou se intensificam tipicamente entre o final da tarde e o início da noite. Ela afeta uma parcela significativa dos pacientes com demência — estudos indicam que até 66% das pessoas com Alzheimer apresentam algum grau de sundowning ao longo da doença.

É importante entender que não se trata de um diagnóstico separado, mas sim de um padrão temporal de piora dos sintomas já existentes da demência. A pessoa que durante o dia estava relativamente calma pode, ao entardecer, apresentar uma mudança de comportamento que surpreende e assusta a família.

Cada paciente pode apresentar sintomas diferentes. Por isso, o acompanhamento adequado e individualizado faz toda a diferença no manejo da síndrome do pôr do sol.

Quais são os sintomas da síndrome do pôr do sol?

Os sintomas variam de pessoa para pessoa, mas os mais comuns incluem:

  • Agitação e inquietação — o idoso não consegue ficar parado, levanta-se repetidamente, anda de um lado para o outro
  • Confusão mental acentuada — maior dificuldade de reconhecer onde está ou quem são as pessoas ao redor
  • Irritabilidade e agressividade — reações desproporcionais a estímulos pequenos
  • Ansiedade e medo — sensação de que algo ruim vai acontecer, pedidos para "ir embora" ou "voltar para casa"
  • Choro e tristeza — mudanças súbitas de humor sem causa aparente
  • Perambulação — andar sem rumo, às vezes tentando sair de casa
  • Alterações do sono — dificuldade para adormecer, despertar frequente durante a noite
  • Gritos e vocalizações — chamar repetidamente por nomes de familiares ou falar de forma desconexa

Se o idoso apresenta perambulação frequente, esse comportamento tende a se intensificar justamente no período do sundowning. Da mesma forma, o hábito de chamar repetidamente pelos filhos pode se tornar mais intenso nesse horário.

Por que o idoso com demência piora no fim da tarde?

O cérebro saudável possui um "relógio biológico" chamado núcleo supraquiasmático, localizado no hipotálamo. Esse relógio regula nosso ritmo circadiano — o ciclo de sono e vigília — usando a luz do ambiente como principal referência.

Na demência, esse mecanismo sofre danos progressivos. O cérebro perde a capacidade de interpretar corretamente as mudanças de luz, de horário e de rotina ao longo do dia. Quando a luminosidade diminui no fim da tarde, o cérebro comprometido recebe sinais confusos que desencadeiam respostas de estresse e desorientação.

Além da questão da luz, outros fatores contribuem para o sundowning:

  • Fadiga acumulada — o cansaço mental e físico do dia reduz a capacidade do idoso de lidar com os estímulos
  • Fome ou sede — necessidades básicas não atendidas podem agravar a agitação (saiba mais sobre como manter a hidratação no Alzheimer)
  • Dor não comunicada — o idoso com demência pode não conseguir verbalizar que está sentindo dor
  • Excesso de estímulos — ambientes barulhentos ou movimentados ao fim do dia
  • Efeito de medicamentos — alguns remédios podem ter picos de ação ou abstinência nesse horário
  • Redução da melatonina — a produção desse hormônio regulador do sono é frequentemente alterada em pacientes com Alzheimer

A síndrome do pôr do sol acontece em todas as fases do Alzheimer?

O sundowning pode ocorrer em qualquer fase da demência, mas é mais frequente nas fases moderada e avançada. Nas fases iniciais, quando o comprometimento cerebral ainda é menor, o relógio biológico costuma funcionar de forma mais preservada.

À medida que a doença progride e mais áreas cerebrais são afetadas, a regulação do ritmo circadiano se deteriora. Em alguns casos, o padrão se inverte completamente: o idoso passa a dormir durante o dia e ficar agitado à noite.

É importante que o diagnóstico de Alzheimer e demências seja feito de forma precoce e acompanhado ao longo do tempo, justamente para antecipar e manejar essas complicações comportamentais.

Como ajudar o idoso durante a síndrome do pôr do sol?

Não existe uma solução única, pois cada paciente responde de forma diferente. Mas há estratégias comprovadas que podem reduzir a intensidade e a frequência das crises:

1. Mantenha uma rotina previsível

O cérebro com demência se beneficia enormemente da previsibilidade. Horários fixos para refeições, banho, atividades e sono ajudam a reduzir a desorientação. Evite mudanças bruscas na rotina, especialmente no período da tarde.

2. Cuide da iluminação

Antes que a luz natural comece a diminuir, acenda as luzes da casa. A transição abrupta de claro para escuro é um dos principais gatilhos do sundowning. Luzes brancas e brilhantes durante a tarde e luzes quentes e suaves à noite podem ajudar a sinalizar a mudança de período de forma mais gradual.

3. Reduza estímulos no fim da tarde

Desligue a televisão se o conteúdo for agitado, diminua o volume de conversas e evite visitas inesperadas no período crítico. Um ambiente mais calmo ajuda o cérebro a processar menos informações simultâneas.

4. Ofereça atividades leves no período da tarde

Atividades tranquilas como ouvir música calma, folhear álbuns de fotos ou caminhar brevemente podem ajudar a gastar energia de forma positiva antes que a agitação se instale.

5. Observe possíveis causas tratáveis

Dor, infecção urinária, constipação, fome e sede são causas frequentes de agitação em idosos com demência — e muitas vezes passam despercebidas. Antes de atribuir tudo ao sundowning, vale investigar se há um desconforto físico por trás.

6. Evite cochilos longos durante o dia

Sonecas prolongadas durante o dia podem atrapalhar o sono noturno e intensificar a agitação vespertina. Cochilos de até 30 minutos no início da tarde são aceitáveis, mas sonos longos devem ser evitados.

7. Revise a medicação com o geriatra

Alguns medicamentos podem piorar o sundowning, enquanto outros podem ajudar quando usados no horário correto. O gerenciamento de polifarmácia é fundamental para garantir que a medicação esteja contribuindo — e não atrapalhando. É importante destacar que o uso indiscriminado de calmantes em idosos pode agravar a confusão e aumentar o risco de quedas.

O que NÃO fazer durante uma crise de sundowning?

Tão importante quanto saber o que fazer é entender o que pode piorar a situação:

  • Não discuta nem tente convencer com lógica — o idoso não está sendo "teimoso", o cérebro dele não consegue processar argumentos racionais naquele momento
  • Não contenha fisicamente — a não ser em situação de risco real, a contenção física aumenta a agitação
  • Não grite nem demonstre irritação — o idoso capta o tom emocional mesmo quando não entende as palavras
  • Não force o idoso a dormir — insistir pode gerar mais resistência e ansiedade

A abordagem ideal é acolher, redirecionar a atenção com gentileza e garantir a segurança do ambiente.

O cuidador também precisa de apoio

Lidar com o sundowning noite após noite é extremamente desgastante. O cuidador que enfrenta essa situação precisa de suporte — seja de outros familiares que possam revezar, seja de acompanhamento profissional para ele mesmo.

A exaustão do cuidador não é sinal de fraqueza. É consequência de uma tarefa que exige muito emocionalmente. Se você é cuidador e sente que está no limite, buscar ajuda é um ato de responsabilidade, não de desistência. Confira também nosso artigo sobre como prevenir a demência em quem cuida.

Quando procurar um geriatra?

Se o idoso apresenta agitação frequente no fim da tarde, mudanças de comportamento ao entardecer ou alterações importantes no padrão de sono, é fundamental buscar avaliação especializada. O geriatra pode:

  • Identificar se há causas tratáveis por trás da agitação (dor, infecção, efeito de medicamento)
  • Ajustar a medicação de forma segura e individualizada
  • Orientar a família e os cuidadores com um plano de cuidado individualizado
  • Avaliar a fase da demência e antecipar outras necessidades

A síndrome do pôr do sol não precisa ser enfrentada sozinha. Com orientação adequada, é possível reduzir as crises, melhorar a qualidade de vida do idoso e preservar a saúde de quem cuida.

Perguntas frequentes

O que é a síndrome do pôr do sol no Alzheimer?

É um padrão de piora dos sintomas comportamentais — como agitação, confusão e irritabilidade — que ocorre no fim da tarde e durante a noite em pessoas com Alzheimer e outras demências. Afeta até 66% dos pacientes ao longo da doença e está relacionada a alterações no relógio biológico cerebral.

Por que o idoso com demência fica mais agitado ao entardecer?

O cérebro com demência perde a capacidade de interpretar mudanças de luz e rotina. Quando a luminosidade diminui, o relógio biológico danificado envia sinais confusos que geram estresse e desorientação. Fatores como fadiga acumulada, fome, sede e dor não comunicada também contribuem.

Como acalmar um idoso durante uma crise de sundowning?

Mantenha a calma, fale em tom suave e redirecione a atenção com gentileza. Evite discutir, gritar ou conter fisicamente. Garanta que o ambiente esteja bem iluminado e sem estímulos excessivos. Ofereça água, um lanche leve ou uma atividade tranquila como ouvir música.

A síndrome do pôr do sol tem tratamento?

Não existe um remédio específico para o sundowning, mas há estratégias eficazes: rotina previsível, iluminação adequada, redução de estímulos e revisão da medicação com o geriatra. Em alguns casos, ajustes farmacológicos podem ajudar a controlar a agitação de forma segura.

Em que fase do Alzheimer o sundowning é mais comum?

O sundowning pode ocorrer em qualquer fase, mas é mais frequente nas fases moderada e avançada da demência, quando o comprometimento do relógio biológico cerebral é mais acentuado. Nas fases iniciais, os sintomas tendem a ser mais leves ou ausentes.

Fontes consultadas

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