Vacina Contra Herpes-Zóster Pode Reduzir o Risco de Alzheimer e Outras Demências

Por Laura ImoveisPublicado em Atualizado em 7 min de leitura
Vacina Contra Herpes-Zóster Pode Reduzir o Risco de Alzheimer e Outras Demências

Você sabia que existe uma vacina que pode diminuir o risco de Alzheimer e outras demências? Parece surpreendente, mas a ciência tem mostrado evidências cada vez mais consistentes sobre essa relação. E o mais impressionante: estamos falando de uma vacina que já existe e está disponível — a vacina contra herpes-zóster.

Muita gente nunca ouviu falar dessa conexão. A maioria associa o herpes-zóster apenas àquelas lesões dolorosas na pele, conhecidas como "cobreiro". Mas a verdade é que o vírus por trás dessa doença pode causar danos silenciosos ao cérebro — e a vacinação pode ser uma forma poderosa de prevenção.

Qual é a relação entre herpes-zóster e Alzheimer?

O herpes-zóster é causado pela reativação do vírus varicela-zóster (VZV), o mesmo vírus da catapora. Depois de você ter catapora na infância, o vírus não desaparece do corpo — ele fica "adormecido" nos gânglios nervosos, esperando uma oportunidade para voltar.

Quando o sistema imunológico enfraquece — o que acontece naturalmente com o envelhecimento —, o vírus pode reativar. E aqui está o ponto crucial: essa reativação não afeta apenas a pele. O vírus percorre os nervos e pode atingir o sistema nervoso central, provocando um processo chamado neuroinflamação.

A neuroinflamação crônica é hoje considerada um dos mecanismos centrais no desenvolvimento do Alzheimer e de outras demências. Estudos publicados em revistas como o JAMA Neurology e o The Lancet demonstraram que pessoas que tiveram herpes-zóster apresentam um risco aumentado de desenvolver demência nos anos seguintes ao episódio.

A inflamação provocada pelo vírus varicela-zóster no sistema nervoso pode funcionar como um gatilho para processos neurodegenerativos que levam à perda de memória e ao declínio cognitivo.

O que os estudos dizem sobre a vacina e a redução do risco de demência?

Pesquisas populacionais de grande escala têm trazido resultados animadores. Um estudo publicado em 2023 analisou dados de mais de 200 mil pessoas no País de Gales e concluiu que a vacinação contra herpes-zóster esteve associada a uma redução de até 20% no risco de demência ao longo de sete anos de acompanhamento.

Outro estudo, realizado nos Estados Unidos com dados de veteranos, encontrou resultados semelhantes: idosos vacinados contra herpes-zóster tinham menor incidência de Alzheimer e outras formas de demência em comparação com os não vacinados.

É importante ressaltar que a vacina não foi desenvolvida com o objetivo de prevenir demência — ela foi criada para evitar o herpes-zóster e suas complicações, como a neuralgia pós-herpética (uma dor intensa e prolongada nos nervos). Porém, o benefício colateral de proteção cerebral tem chamado a atenção da comunidade científica mundial.

Como o herpes-zóster causa dano ao cérebro?

Para entender melhor, pense no seguinte: o vírus varicela-zóster "mora" dentro dos seus nervos. Quando ele reativa, viaja pelos nervos até a pele — causando as bolhas típicas do cobreiro. Mas, em alguns casos, ele também pode viajar na direção oposta, em direção ao cérebro.

Ao atingir o sistema nervoso central, o vírus desencadeia uma resposta inflamatória intensa. Essa inflamação pode:

  • Danificar diretamente os neurônios
  • Ativar células de defesa do cérebro (microglia) de forma excessiva
  • Favorecer o acúmulo de proteínas tóxicas, como a beta-amiloide e a proteína tau, que estão associadas ao Alzheimer
  • Comprometer a barreira hematoencefálica, que protege o cérebro de substâncias nocivas

Ou seja, mesmo que o episódio de herpes-zóster pareça "só na pele", as consequências podem ir muito além. É como se o vírus deixasse um rastro de inflamação que, somado a outros fatores de risco, acelera o processo de neurodegeneração.

Quem deve tomar a vacina contra herpes-zóster?

A vacina contra herpes-zóster é recomendada para adultos a partir dos 50 anos, independentemente de já terem tido catapora ou herpes-zóster anteriormente. Existem dois tipos disponíveis:

  • Vacina recombinante (Shingrix): é a mais moderna e eficaz, com proteção superior a 90% contra herpes-zóster. É aplicada em duas doses, com intervalo de dois a seis meses. É a versão que mostrou os melhores resultados nos estudos sobre proteção cerebral.
  • Vacina de vírus vivo atenuado (Zostavax): versão mais antiga, com eficácia menor. Está sendo gradualmente substituída pela recombinante em muitos países.

No Brasil, a vacina recombinante está disponível em clínicas particulares. Infelizmente, ainda não faz parte do calendário de vacinação gratuita do SUS para a população geral, embora esteja disponível em alguns centros de referência para pacientes imunossuprimidos. Confira também as vacinas gratuitas no SUS para idosos que você não pode deixar de tomar.

A vacina substitui outros cuidados de prevenção contra demência?

De forma alguma. A vacina contra herpes-zóster é mais uma camada de proteção dentro de uma estratégia ampla de prevenção. Os pilares fundamentais para proteger o cérebro continuam sendo:

  • Atividade física regular — pelo menos 150 minutos por semana
  • Alimentação equilibrada — como a dieta mediterrânea
  • Controle de doenças crônicas — diabetes, hipertensão e colesterol elevado
  • Estimulação cognitiva — leitura, jogos, aprendizado contínuo
  • Sono de qualidade — entre 7 e 8 horas por noite
  • Socialização ativa — manter vínculos e participar de atividades em grupo

A vacinação se soma a esses hábitos como um fator de proteção adicional. Como gosto de dizer: prevenir demência é montar um quebra-cabeça — cada peça conta, e a vacina pode ser uma peça importante que muita gente desconhece. Saiba mais sobre como prevenir o Alzheimer com ações práticas no dia a dia.

Quais são os efeitos colaterais da vacina contra herpes-zóster?

A vacina recombinante (Shingrix) é considerada segura. Os efeitos colaterais mais comuns são leves e temporários:

  • Dor e vermelhidão no local da aplicação
  • Fadiga
  • Dor muscular
  • Dor de cabeça
  • Febre baixa

Esses sintomas costumam desaparecer em dois a três dias. Reações graves são extremamente raras. O benefício da proteção contra herpes-zóster — e possivelmente contra a demência — supera amplamente os desconfortos temporários da vacinação.

E se eu já tive herpes-zóster, ainda devo me vacinar?

Sim. Ter tido herpes-zóster não impede — e na verdade reforça — a indicação da vacina. O vírus pode reativar mais de uma vez, e cada episódio representa um novo risco de neuroinflamação e complicações. A recomendação é aguardar pelo menos um ano após o episódio para iniciar a vacinação.

Além disso, a vacina recombinante é segura mesmo para pessoas que já tiveram a doença, oferecendo proteção robusta contra novos episódios.

Por que essa informação é tão pouco divulgada?

A relação entre herpes-zóster e demência ainda é relativamente recente na literatura médica. Muitos profissionais de saúde ainda não incorporaram essa informação na prática clínica. Além disso, como a vacina não foi originalmente desenvolvida para prevenir Alzheimer, a divulgação desse benefício adicional caminha de forma mais lenta.

Mas os dados estão aí — e são consistentes. A tendência é que, nos próximos anos, a vacinação contra herpes-zóster seja cada vez mais reconhecida como parte de uma estratégia de saúde cerebral na meia-idade e na velhice. Se você tem curiosidade sobre o que mais pode fazer hoje, leia sobre como proteger seu cérebro desde já.

Quando procurar um geriatra?

Se você tem mais de 50 anos — ou cuida de alguém nessa faixa etária —, converse com um geriatra sobre a vacina contra herpes-zóster e sobre um plano completo de prevenção de demências. Quanto mais cedo começamos a proteger o cérebro, melhores são os resultados.

Uma avaliação geriátrica ampla permite identificar seus fatores de risco individuais e traçar um plano de cuidado que inclua vacinação, controle de doenças crônicas, orientação sobre estilo de vida e, quando necessário, avaliação de memória e cognição.

Cuidar da saúde do cérebro é um investimento que se faz hoje para colher resultados por décadas. E a vacina contra herpes-zóster pode ser uma das decisões mais simples — e mais impactantes — nessa jornada.

Perguntas frequentes

A vacina contra herpes-zóster realmente previne o Alzheimer?

Estudos populacionais mostram que a vacinação contra herpes-zóster está associada a uma redução de até 20% no risco de desenvolver demência, incluindo Alzheimer. Embora não seja uma prevenção direta, a vacina reduz a neuroinflamação causada pelo vírus, que é um fator de risco para neurodegeneração. Mais pesquisas estão em andamento para confirmar essa relação causal.

Qual vacina contra herpes-zóster é a mais indicada?

A vacina recombinante (Shingrix) é a mais moderna e eficaz, com proteção superior a 90% contra herpes-zóster. É aplicada em duas doses e foi a que demonstrou melhores resultados nos estudos sobre proteção cerebral. Ela está disponível em clínicas particulares no Brasil.

A partir de que idade devo tomar a vacina contra herpes-zóster?

A vacina é recomendada para adultos a partir dos 50 anos, independentemente de já terem tido catapora ou herpes-zóster. Pessoas imunossuprimidas podem ter indicação ainda mais precoce, conforme orientação médica.

A vacina contra herpes-zóster está disponível no SUS?

Atualmente, a vacina recombinante contra herpes-zóster não faz parte do calendário de vacinação gratuita do SUS para a população geral. Está disponível em alguns centros de referência para pacientes imunossuprimidos e pode ser encontrada em clínicas particulares de vacinação.

Já tive herpes-zóster. Ainda posso me vacinar?

Sim, e a vacinação é especialmente recomendada nesse caso. O vírus pode reativar mais de uma vez, e cada episódio representa novo risco de complicações. A orientação é aguardar pelo menos um ano após o episódio para iniciar a vacinação com a Shingrix.

Fontes consultadas

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