Idoso com Alzheimer chama pela mãe — ou por um pai, irmão ou cônjuge que já faleceu. Essa é uma das situações mais dolorosas e frequentes relatadas por famílias que convivem com a doença de Alzheimer. A reação instintiva de muitos cuidadores é corrigir: "Mãe, a vovó já faleceu, lembra?". Mas será que essa é a melhor atitude? Na maioria dos casos, a resposta é não.
Neste artigo, vou explicar por que isso acontece, o que está por trás desse comportamento e — o mais importante — como você pode responder de forma acolhedora, reduzindo o sofrimento tanto do idoso quanto de quem cuida.
Por que o idoso com Alzheimer chama por alguém que já faleceu?
A doença de Alzheimer afeta profundamente a orientação no tempo. Isso significa que a pessoa pode acreditar, de forma genuína, que vive em outra fase da vida — talvez na infância, na juventude ou em um período em que seus pais e entes queridos ainda estavam vivos.
Quando o idoso chama pela mãe, ele não está fazendo drama nem querendo chamar atenção. Na realidade cognitiva dele, faz todo sentido perguntar pela mãe, porque, mentalmente, ele pode estar vivendo como uma criança ou adolescente. É a chamada desorientação temporal, um sintoma muito comum e bem documentado nas fases moderada e avançada da demência.
Além disso, chamar por alguém querido pode expressar uma necessidade emocional: a pessoa sente medo, insegurança, solidão ou desconforto e busca a figura que, em sua história de vida, representava proteção e acolhimento.
Devo contar de novo que a pessoa faleceu?
Essa é a dúvida que mais ouço no consultório. E a resposta, na maioria dos casos, é: evite repetir a notícia da morte.
Quando você diz ao idoso com Alzheimer que a mãe (ou outro ente querido) já faleceu, ele pode vivenciar essa informação como se estivesse recebendo a notícia pela primeira vez. Imagine sofrer um luto novo a cada vez que alguém responde à sua pergunta — várias vezes ao dia. É exatamente isso que pode acontecer.
Mais importante do que corrigir a memória é cuidar da emoção daquela pessoa naquele momento.
A memória de curto prazo está comprometida, então a pessoa não vai "aprender" a informação. Mas a emoção gerada — a tristeza, a angústia, o choro — pode permanecer por horas, mesmo depois que ela esquecer o motivo. Em geriatria, chamamos isso de memória emocional residual: o sentimento fica, mesmo quando o fato que o causou é esquecido.
O que fazer então? 5 estratégias de acolhimento
Em vez de confrontar com a realidade, use uma abordagem baseada em validação e redirecionamento. Veja as cinco estratégias mais recomendadas:
1. Acalmar
Antes de qualquer coisa, mantenha a calma. O tom da sua voz, sua expressão facial e sua postura corporal comunicam mais do que as palavras. Fale devagar, com voz suave e olhe nos olhos do idoso. Toque gentilmente na mão ou no ombro, se ele se sentir confortável com o contato.
2. Validar o sentimento
Reconheça a emoção que está por trás da fala. Você pode dizer algo como: "Você gosta muito da sua mãe, né? Ela é muito especial." Isso mostra que você está ouvindo e que os sentimentos dele importam — sem confirmar nem negar a realidade.
3. Redirecionar a conversa
Depois de acolher, conduza a conversa para outro assunto ou atividade prazerosa. "Me conta como era a sua mãe. Ela cozinhava bem?" Ou: "Vamos tomar um café fresquinho? Do jeito que você gosta." O objetivo é deslocar o foco da angústia para algo que gere conforto.
4. Oferecer conforto emocional
Música familiar, um álbum de fotos com memórias boas, um objeto significativo (como um lenço ou uma manta) — tudo isso pode ajudar a pessoa a se sentir segura. A pet terapia, por exemplo, também tem mostrado resultados positivos em situações de agitação e chamamento repetitivo.
5. Evitar confrontos desnecessários
Não corrija, não insista na "verdade" e não diga coisas como "Já te falei mil vezes". A pessoa não está escolhendo esquecer. Ela tem uma doença que a impede de reter informações recentes. Confrontar só gera mais confusão, agitação e sofrimento — para os dois lados.
Isso é mentir para o idoso?
Muitas famílias sentem culpa com essa abordagem: "Mas eu estaria mentindo para o meu pai?" Essa é uma preocupação legítima. No entanto, existe uma diferença importante entre mentir para enganar e adaptar a comunicação para proteger.
Na geriatria e na psicologia do cuidado em demência, chamamos isso de "mentira terapêutica" ou, de forma mais precisa, comunicação adaptada. O objetivo não é manipular, mas evitar um sofrimento desnecessário e repetido em uma pessoa que não tem condição cognitiva de processar aquela informação de forma funcional.
Cada caso é único, e existem situações em que uma abordagem mais direta pode ser adequada — especialmente em fases iniciais, quando a pessoa ainda mantém certa capacidade de compreensão. Por isso, é fundamental discutir essas questões com o médico geriatra que acompanha o caso.
Quando o chamamento é mais intenso: pode ser a Síndrome do Pôr do Sol?
Se o idoso costuma ficar mais agitado, confuso e chamando por pessoas no final da tarde ou início da noite, pode haver relação com a chamada Síndrome do Pôr do Sol (sundowning). Nesse quadro, o declínio da luminosidade e o cansaço do dia agravam os sintomas comportamentais da demência.
Nesses casos, medidas como manter o ambiente iluminado, estabelecer rotinas previsíveis e evitar estímulos excessivos no fim do dia podem ajudar significativamente.
O impacto emocional no cuidador também importa
Ouvir o seu pai ou a sua mãe pedir repetidamente por alguém que já faleceu é emocionalmente exaustivo. É um lembrete constante da doença e da perda — uma espécie de "luto antecipado" que o cuidador vivencia todos os dias.
Se você é cuidador familiar, saiba que seus sentimentos também são válidos. Chorar, sentir frustração, ter dias em que nada parece funcionar — tudo isso faz parte. Mas é essencial buscar apoio: grupos de cuidadores, acompanhamento psicológico e divisão de tarefas com outros familiares fazem diferença real. Já abordamos esse tema no artigo Alzheimer não é só perda de memória: o impacto real na família e no cuidador.
Comunicação no Alzheimer: uma habilidade que pode ser aprendida
Muitas famílias se surpreendem ao descobrir que existem técnicas estruturadas de comunicação para lidar com pessoas com demência. Não é sobre "ter jeitinho" — é sobre entender como o cérebro afetado pelo Alzheimer processa (ou não processa) informações, e adaptar a forma como falamos, perguntamos e respondemos.
Se você quer se aprofundar nessas técnicas, recomendo a leitura do artigo Como cuidar de quem tem Alzheimer: técnicas de comunicação que transformam o dia a dia.
Quando procurar um geriatra?
Se o idoso apresenta chamamentos repetitivos, agitação frequente, choro sem motivo aparente ou qualquer mudança de comportamento que gera sofrimento, é hora de conversar com um médico geriatra. Uma avaliação geriátrica ampla permite entender a fase da doença, ajustar medicações quando necessário e — tão importante quanto — orientar a família sobre as melhores formas de manejo.
Cada caso é único. O que funciona para uma família pode não funcionar para outra. Mas com orientação adequada, é possível reduzir o sofrimento e melhorar a qualidade de vida de todos os envolvidos — inclusive de quem cuida.
Perguntas frequentes
▸Devo contar para o idoso com Alzheimer que a mãe dele já faleceu?
Na maioria dos casos, não é recomendado. A pessoa pode vivenciar o luto como se fosse a primeira vez, várias vezes ao dia. A emoção negativa gerada pode persistir por horas, mesmo que ela esqueça a informação. O mais indicado é acolher, validar o sentimento e redirecionar a conversa.
▸Por que o idoso com Alzheimer chama por pessoas que já morreram?
O Alzheimer causa desorientação temporal — a pessoa pode acreditar que vive em outra fase da vida, quando seus pais e entes queridos ainda eram vivos. Além disso, chamar por alguém querido pode ser uma expressão de necessidade emocional, como medo, solidão ou insegurança.
▸Redirecionar a conversa em vez de falar a verdade não é mentir para o idoso?
Existe uma diferença entre mentir para enganar e adaptar a comunicação para proteger. Na geriatria, isso é chamado de comunicação adaptada ou mentira terapêutica. O objetivo é evitar sofrimento repetido e desnecessário em alguém que não consegue processar a informação de forma funcional.
▸O que fazer se o idoso fica mais agitado e confuso no fim da tarde?
Isso pode ser a Síndrome do Pôr do Sol (sundowning), comum em pessoas com demência. Manter o ambiente bem iluminado, seguir rotinas previsíveis e reduzir estímulos no fim do dia são medidas que podem ajudar. Converse com o geriatra para avaliar a necessidade de ajustes no tratamento.
▸Como o cuidador pode lidar emocionalmente com essa situação repetitiva?
Ouvir repetidamente o idoso chamar por alguém que faleceu é emocionalmente desgastante. É fundamental que o cuidador busque apoio psicológico, participe de grupos de cuidadores e divida responsabilidades com outros familiares. Os sentimentos do cuidador também precisam ser acolhidos.